Tudo naquela cidade era caótico. Tudo se movia a todo tempo: pessoas, vozes, carros, luzes -- a projeção contemporânea do inferno. Havia um único lugar tranqüilo, a praia, mas nem mesmo o mar parava por um segundo sequer. Então, resolveu ser alheia àquele rítmo e, cansada, acomodou-se como pôde no primeiro lugar que encontrou, parou antes que o pesadelo sensorial a consumisse. Tinha algo em mente, mas não a importava o quê, se preocupava apenas em olhar para baixo e deixar que a mente se ocupasse com aquilo até terminar de descartar o resto.
A perguntaram o que fazia. Ela permaneceu parada, a fim de esconder o quanto revirava a mente por palavras, para finalmente murmurar um inaudível "nada" e voltar a contemplar o chão -- único ponto de seu interesse naquele momento.
A cena se repetiria em pormenores quantas vezes necessário se fizesse se, ao invés do que fazia, a perguntassem o que amava, o que sentia, o que queria, as horas ou qualquer outra coisa dessas simples(mente desconexas) o cotidiano (dela), exceto o caos. Ela não entendia o porquê dos olhares confusos sobre ela -- não fazia absolutamente nada, mesmo, e jamais entendera o porquê do que considerava normal espantar tanto aquele estranho odiável e curioso.
Tudo que ela via parecia nada, inclusive os insetos que observava rastejar. O que ela não sabia era que, desde que chegara ali, ela via o que tinha por trás dos próprios olhos, e só olhava pro chão porque estava abaixo de seus pés, compreendido sob a superioridade em que ela precisava se sentir, observando insetos só por focalizar algo que pudesse lhe ser inferior. O nada ela já tinha absorvido e precisava desesperadamente que o resto do mundo entrasse numa mesma igualdade vazia, a que a corroía, até então. Ela estava em paz, embora não notasse o ódio perturbador que tinha de si própria, e quem a perguntara só via nela caos porque também já tinha o caos dentro de si e o projetava em qualquer outro lugar. Enquanto fitara o chão, descartara ela mesma e se tornara acinzentada, se observara de fora e não se reconhecera, sentindo-se forçada pela curiosidade a perguntar o que diabos acontecia ali. Retomou, a seguir, a consciência tão atormentada pelo caos que viu nela mesma. Ela era o caos. Apressou-se em ir embora daquele lugar, teve medo de absorver os insetos, porque os via inferiores e já notara que projetava nos outros o que sobrava dentro dela.
Ela era alheia à própria consciência.